Skip to main content

Posts

Pátria

O que nos une são apenas linhas, e uma língua que não morre, neste povo mais velho que a terra, Que Existe vai para além de Deus. O que nos une, não encontra definição, saudoso vai e vem das marés distantes. letargia de acreditar sem saber o porquê, ou remota crença de olhar e ver no nevoeiro. Aquela, esta pátria ainda não o é, está à espera de o ser, no ventre da mãe, mordendo a memória das palavras alimentando-se de páginas navegadas de pó. Não viveremos as horas suficientes de uma vida para ver arrancadas do peito as balas disparada contras os pés que conscientemente se alojaram na ideia de nação.

Fome

Dá-me a fome, e repito, amordaçando a saliva até engolir meia palavra. ... Meio pão seco, e cresce-me um deserto na boca. mesmo agora que te comi... Nasce-me uma secura galopante, de te saborear o peito pela raiz e sobreviver do teu leite. Tenho-te fome, fecho as cortinas do olhos e sou só apetite. Morde-me e dá-me de comer, à boca, mastiga-me e reduz-me a matéria... Se sobrarem migalhas solta-as aos pombos, que alguém se alimente de mim.

Amor Ondulado

Vi duas ondas a fazerem amor no encher crescente a maré Sem me aperceber do seu sexo a mais viril pegou na outra pela cintura, colaram-se e subiu-lhe para cima penetrando-a enquanto cresciam no horizonte. No vento declarado de testemunha vinha a voz da onda penetrada que se acercava da praia suspirando ao longo da água. Aquele ritual marítimo Sexualmente salgado de hipertensão terminou quando a onda fálica ejaculou espuma para a areia aos nossos pés. Despediram-se sussurando, sem um olhar, Confessando às gaivotas promessas de um retornar.

Folha em Branco

A folha onde mais escrevi É talvez de papel, Ou parede pintada de fresco Que permanece em branco. A sua cor lembra-me Uma grinalda de noiva Imaculadamente clara, Claramente pura. Pálida como pele sem sol Gelo sempre à sombra, Granizo que derrete Com o calor da tinta. Branco é a cor das asas Das gaivotas silenciosas Que mergulham do céu Directamente para o mar. Branco é o mármore dos dentes E o azulejo dos olhos tímidos Que se protegem Na escuridão das pestanas. Branca é a folha É o papel, e a parede Segundo parece pintada de fresco Que escrevo na minha memória.

Terra Quente de Sufocar

Mesmo que hoje não corrêssemos, ou ficássemos sentados a d igerir os instantes num copo de café, em nós cairiam gotas de suor quentes transvestidas em roupas de chuva, oferecendo seus lábios quentes molhados em troca de uma estrada abrasiva onde pudessem evaporar. O céu é agora uma cidade, é um prédio cheio de pessoas a acenderem e apagarem suas luzes, é o som de passos distanciados que convidam as finas paredes de algodão para dançar ao ritmo da chuva que cai. Cheira a terra sufocada, como se tivéssemos as mãos no pescoço, como se as nuvens do céu, fossem panos a tapar-nos a boca e o ar respirável fosse apenas humidade temporária e prestes a voar. Quando um dia me deitar no chão, espero que a terra cheire como hoje, que use exactamente o mesmo perfume.

A todas aquelas

De uma nasci Com outra cresci Com ela me deito O mundo pode fazer-se de homens, da sua voz e sangue, mas eu pertenço a elas. Cresça em mim nova costela por cada uma delas que eu veja partir Deus veja em mim um novo Adão para plantar no meu jardim Evas como elas.

4x7=Escola

Não me leves à escola, Onde não me conhecias, Estrangeiro, ausente. Sabia pelas manhãs a que horas o sol Te cumprimentava, e em que minuto Se despedia de ti, pelo portão sem retorno. Anotava todos os teus passos Para logo os repetir, rotineiramente, Calcando-os, tropeçando em ti. Não me vias, nunca me viste, Mas também o sol só vê ao longe a lua E por isso mesmo são amantes. Não me lembres a sala de aula Onde de costas memorizava o teu rosto, E as letras do teu sorriso. Mordi em silêncio a tua voz, E a cor de especiaria do teu cabelo, Que cheirava no vento aos passares. Agora já olhavas para mim E não me conhecias, era eu castelo, E tu Rainha de reino distante. Eras estrela de constelação inabitada, Guia da minha missão, norte do meu sentir, Nascimento de vida em mim. Não me leves a lado algum... Fecha a porta e não deixes o tempo entrar, Está frio lá fora no mundo. Deixa-me esquecer contigo, até ao dia Em que voltar à escola, à sala de aula, Onde para te ver terei que sonhar.

Escolher

Se fosse um mês escolheria aquele em que fizer mais calor no teu corpo... Se fosse uma hora do dia, seria aquela em que teus olhos fechados, essa que não partilhas com mais ninguém Se fosse um ano... pediria para ser o da tua morte para começar a viagem antes de ti. Se fosse uma vida... escolheria a minha para a puder viver contigo...

O amor é...

Nunca o amor é veneno, mesmo o intravenoso, e se no rótulo diz inflamável só queima a quem já não tem pele. Amor é bala, Disparada para o ar para matar quem rouba a fome que nos alimenta. Amor é electricidade, sem ser estática, porque os lencóis denunciam os caminhos que percorremos. Amor é silêncio, sem língua ou dicção, e sem cordas para cantar soletramos a escrita da mão. Amor é acabar... partir na hora de chegar rir para não chorar escrever para a tinta não secar. Amor é não dizer mais nada...

Poema de fim de ano

Última folha Rasgada... Chega mais um comboio, Cheio... Entram sonhos por viver Sai quem não os viveu. Inicia-se a viagem Carris somam dias Janelas acrescentam oportunidades De distinguir o que passa por nós Amanhã, Não se rasgarão calendários, Obliteram-se desejos, Que nos remetem para momentos Onde lutaremos para existir.

Sonho Libertino

É tão mais fácil sonhar, que neste mundo ser gente, mas livres, somos apenas de imaginar, porque dos Homens somos descrentes. Escreveu-se tanto na memória dos livros, instruções de total liberdade, mas esqueceram-se de nos explicar, Como a vestir para andar pela rua fora. Sonhemos que escolhemos, que a nossa boca realmente fala, e que as ideias que nascem em nós não são filhas de um Deus menor. O meu..perdi-o a atravessar o sono deixei-o a falar aos Homens, porque enquanto estão distraídos posso dormir descansado...!

Pétalas de Cheiro

Peguei numa rosa e ela disse-me que te haviam caído todas as pétalas. Procurei-as com faro de cão e depois do chão te ter levantado com saliva na boca te colei. Peguei noutra flor, que me perguntou se a amava mas eras só de ti cheiro que me calava a boca.

Sou

Eu sou a sombra E a brisa que te aquece, A água que bebes Nos teus dias de verão. Eu sou o caminho Que descobres sozinha descalça e cansada. Sou a paisagem intimista, que pintaste com os olhos verdes dos campos lisos. Sou o deserto que construíste, Grão a grão com a boca De cada vez que me chamaste. Sou a criança, que embalaste nos braços e no baloiço partido do jardim. Sou o mesmo que choraste E fizeste chorar na hora de dormir Quando esperávamos por um amanhã. Sou...o princípio destas linhas. E se as leres serei também O fim de mais este parágrafo.

Jangada

Escrevo... Jangadas de palavras. Arrancei da terra Troncos de memórias Desnudei as arvóres Das folhas dos dias Amarrei as pessoas Para serem tábua de salvação. Da tinta fiz corrente, Escrita permamente Desenhei bandeiras, Apaguei ancorâs Soletrei a rota Recitei o ritmo da maré... Todos a bordos, Escrevi... Jangada a navegar

Cabelos de areia

De minhas mãos fugias, como o ouro dos bandidos, condenado da forca, cabelo do pente. Suave era esse cabelo dourado acabado de pentear, tapete de voos intemporais, mil noites para conquistar. Perdi-me nessa cidade de ouro que me enterrava os pés que eu abarcava com os dedos, amarrados da raiz às pontas. Era amor o movimento, vai e vém do vento quente que soprava vindo da terra do nada que tudo encerra. E esse vento amante, que te moldava as dunas, levou-te a construir castelos para outra praia longe da minha mão.

Gaivota

Disse-me uma gaivota um dia "sabes a mar" Como? se nem sei nadar? Se para mim o mar é saudade infinita, é mulher amante que só tenho quando ela me quer dentro dela? Disse-me uma gaivota um dia "és um peixe" Como se deixei a pele para trás se as escamas são hoje calvície, e se respirar dentro de mim é tão difícil como sereia ter pés para andar? Perguntou-me uma gaivota um dia "És o quê no mundo?" Sou mar infinito a morrer de saudades da amante que tem dentro dele, sereia com tranças de escamas em corpo de peixe que respira quando beija com seu pé o mar.

Barco à deriva

Barco contra a maré, o sol à nossa direita, a vela mantêm-se de pé, Horizonte é linha estreita. Os remos trabalham sozinhos, Gaivotas namoram sereias, Que domam golfinhos, A espuma forma teias. Sobrevive-se na crista, Molha-se o pessimismo, é isto um quadro futurista? "Metros a mais do mesmo," A âncora outrora sal fino Conserva o aço frio, Oxida a ondulação sem tino, ai barco resiste com brio. Cada onda é ponte erguida, Montanha azul sem trilho, As estrelas são guarida Escamas de peixe cheias de brilho. Barco se chegares a terra, Descansa de cabeça para ar Imagina que esta espera Aconteceu porque não sabias nadar.

Bola

sou bola contra a parede, atirada pelo coração parede, chão, parede, chão, voa bola coração para a mão, parede para a mão. voa bola e acerta-me no coração chão para a mão. voa bola esvazia-me o ar parede no coração. parede, chão, parede, chão sou bola contra a parede, esvazia-me o coração. sou bola vazia, sem parede no coração para acertar vinda do chão.

Beleza

Desumano medir a tua beleza, com a régua que me molda o bolso canhoto do corpo, trançando numa linha os centímetros que existem entre nós. A medida do que é belo, as tuas linhas, a lápis desafiado, desenhei-as hoje no céu matinal reais como obras da renascença. Sem métrica quantificante, regras que definem a escala o brilho que nos invade as pálpebras, é areia movediça num abraço. Mesmo que criem o vazio entre céu e mar, e enumerem sem erro o desígnio estrelar, deixem cair a teorização do encanto, congelem-me, e deixem-me mais tarde acordar.

Ensinamento

por mim... ensina-me a tua verdade a que não vem nos livros, que conheces sem saber ler. por nós.. ensina-me a ler os lábios do mar, na rebentação das palavras contra os soldados que dão o peito às balas sós. e por eles... ensina-me a escrever numa tempestade de areia, a manter os nossos pés cravados, para que não se apaguem as lapides esculpidas pelo vazar da maré. por ti... ensina-me a manter a gravidade horizontal das coisas, em especial a voz das gaivotas que nos levam bem mais longe que nós.