Friday, July 08, 2011

Amor Ondulado

Vi duas ondas a fazerem amor
no encher crescente a maré

Sem me aperceber do seu sexo
a mais viril pegou na outra pela cintura,
colaram-se e subiu-lhe para cima
penetrando-a enquanto cresciam no horizonte.

No vento declarado de testemunha
vinha a voz da onda penetrada
que se acercava da praia
suspirando ao longo da água.

Aquele ritual marítimo
Sexualmente salgado de hipertensão
terminou quando a onda fálica
ejaculou espuma para a areia aos nossos pés.

Despediram-se sussurando, sem um olhar,
Confessando às gaivotas promessas de um retornar.

Wednesday, June 15, 2011

Folha em Branco

A folha onde mais escrevi
É talvez de papel,
Ou parede pintada de fresco
Que permanece em branco.

A sua cor lembra-me
Uma grinalda de noiva
Imaculadamente clara,
Claramente pura.

Pálida como pele sem sol
Gelo sempre à sombra,
Granizo que derrete
Com o calor da tinta.

Branco é a cor das asas
Das gaivotas silenciosas
Que mergulham do céu
Directamente para o mar.

Branco é o mármore dos dentes
E o azulejo dos olhos tímidos
Que se protegem
Na escuridão das pestanas.

Branca é a folha
É o papel, e a parede
Segundo parece pintada de fresco
Que escrevo na minha memória.

Monday, May 30, 2011

Terra Quente de Sufocar

Mesmo que hoje não corrêssemos,
ou ficássemos sentados
a digerir os instantes num copo de café,
em nós cairiam gotas de suor quentes
transvestidas em roupas de chuva,
oferecendo seus lábios quentes molhados
em troca de uma estrada abrasiva
onde pudessem evaporar.

O céu é agora uma cidade,
é um prédio cheio de pessoas
a acenderem e apagarem suas luzes,
é o som de passos distanciados
que convidam as finas paredes de algodão
para dançar ao ritmo da chuva que cai.

Cheira a terra sufocada,
como se tivéssemos as mãos no pescoço,
como se as nuvens do céu,
fossem panos a tapar-nos a boca
e o ar respirável fosse apenas
humidade temporária e prestes a voar.

Quando um dia me deitar no chão,
espero que a terra cheire como hoje,
que use exactamente o mesmo perfume.

Tuesday, March 08, 2011

A todas aquelas

De uma nasci
Com outra cresci
Com ela me deito

O mundo pode fazer-se de homens,
da sua voz e sangue,
mas eu pertenço a elas.

Cresça em mim nova costela
por cada uma delas
que eu veja partir

Deus veja em mim um novo Adão
para plantar no meu jardim
Evas como elas.

Monday, February 14, 2011

4x7=Escola

Não me leves à escola,
Onde não me conhecias,
Estrangeiro, ausente.

Sabia pelas manhãs a que horas o sol
Te cumprimentava, e em que minuto
Se despedia de ti, pelo portão sem retorno.

Anotava todos os teus passos
Para logo os repetir, rotineiramente,
Calcando-os, tropeçando em ti.

Não me vias, nunca me viste,
Mas também o sol só vê ao longe a lua
E por isso mesmo são amantes.

Não me lembres a sala de aula
Onde de costas memorizava o teu rosto,
E as letras do teu sorriso.

Mordi em silêncio a tua voz,
E a cor de especiaria do teu cabelo,
Que cheirava no vento aos passares.

Agora já olhavas para mim
E não me conhecias, era eu castelo,
E tu Rainha de reino distante.

Eras estrela de constelação inabitada,
Guia da minha missão, norte do meu sentir,
Nascimento de vida em mim.

Não me leves a lado algum...
Fecha a porta e não deixes o tempo entrar,
Está frio lá fora no mundo.

Deixa-me esquecer contigo, até ao dia
Em que voltar à escola, à sala de aula,
Onde para te ver terei que sonhar.

Saturday, January 29, 2011

Escolher

Se fosse um mês
escolheria aquele em que fizer
mais calor no teu corpo...

Se fosse uma hora do dia,
seria aquela em que teus olhos fechados,
essa que não partilhas com mais ninguém

Se fosse um ano...
pediria para ser o da tua morte
para começar a viagem antes de ti.

Se fosse uma vida...
escolheria a minha
para a puder viver contigo...

Sunday, January 02, 2011

O amor é...

Nunca o amor é veneno,
mesmo o intravenoso,
e se no rótulo diz inflamável
só queima a quem já não tem pele.

Amor é bala,
Disparada para o ar
para matar quem rouba
a fome que nos alimenta.

Amor é electricidade,
sem ser estática,
porque os lencóis denunciam
os caminhos que percorremos.

Amor é silêncio,
sem língua ou dicção,
e sem cordas para cantar
soletramos a escrita da mão.

Amor é acabar...
partir na hora de chegar
rir para não chorar
escrever para a tinta não secar.

Amor é não dizer mais nada...

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