Tuesday, September 30, 2014

Buraco

Este ou aquele medo, 
nem tu sabes,
vês ou tocas, 
nem que seja ao de leve,
nasce nos amanheceres
do buraco do teu coração,
profundo como o buraco da estrada,
eterna moradia de estrela cadente,
caída do negro céu das sombras,
que para ti deixou de brilhar...



Wednesday, April 23, 2014

Azul Sincero

Glória aos dias de azul sincero.
Daquele azul tão profundo que não nos mente
Suspenso em pilares de verdade
Onde mesmo as nuvens pinceladas
Trazem vestido manto transparente
Desnudando-lhe os ossos um por um.

Glória a ti, azul simultâneo.

Thursday, June 28, 2012

Pátria

O que nos une são apenas linhas,
e uma língua que não morre,
neste povo mais velho que a terra,
Que Existe vai para além de Deus.

O que nos une, não encontra definição,
saudoso vai e vem das marés distantes.
letargia de acreditar sem saber o porquê,
ou remota crença de olhar e ver no nevoeiro.

Aquela, esta pátria ainda não o é,
está à espera de o ser, no ventre da mãe,
mordendo a memória das palavras
alimentando-se de páginas navegadas de pó.

Não viveremos as horas suficientes de uma vida
para ver arrancadas do peito as balas
disparada contras os pés que conscientemente
se alojaram na ideia de nação.

Monday, April 30, 2012

Fome

Dá-me a fome,
e repito, amordaçando a saliva
até engolir meia palavra.
...
Meio pão seco,
e cresce-me um deserto na boca.
mesmo agora que te comi...

Nasce-me uma secura galopante,
de te saborear o peito pela raiz
e sobreviver do teu leite.

Tenho-te fome,
fecho as cortinas do olhos
e sou só apetite.

Morde-me e dá-me de comer,
à boca, mastiga-me
e reduz-me a matéria...

Se sobrarem migalhas
solta-as aos pombos,
que alguém se alimente de mim.

Friday, July 08, 2011

Amor Ondulado

Vi duas ondas a fazerem amor
no encher crescente a maré

Sem me aperceber do seu sexo
a mais viril pegou na outra pela cintura,
colaram-se e subiu-lhe para cima
penetrando-a enquanto cresciam no horizonte.

No vento declarado de testemunha
vinha a voz da onda penetrada
que se acercava da praia
suspirando ao longo da água.

Aquele ritual marítimo
Sexualmente salgado de hipertensão
terminou quando a onda fálica
ejaculou espuma para a areia aos nossos pés.

Despediram-se sussurando, sem um olhar,
Confessando às gaivotas promessas de um retornar.

Wednesday, June 15, 2011

Folha em Branco

A folha onde mais escrevi
É talvez de papel,
Ou parede pintada de fresco
Que permanece em branco.

A sua cor lembra-me
Uma grinalda de noiva
Imaculadamente clara,
Claramente pura.

Pálida como pele sem sol
Gelo sempre à sombra,
Granizo que derrete
Com o calor da tinta.

Branco é a cor das asas
Das gaivotas silenciosas
Que mergulham do céu
Directamente para o mar.

Branco é o mármore dos dentes
E o azulejo dos olhos tímidos
Que se protegem
Na escuridão das pestanas.

Branca é a folha
É o papel, e a parede
Segundo parece pintada de fresco
Que escrevo na minha memória.

Monday, May 30, 2011

Terra Quente de Sufocar

Mesmo que hoje não corrêssemos,
ou ficássemos sentados
a digerir os instantes num copo de café,
em nós cairiam gotas de suor quentes
transvestidas em roupas de chuva,
oferecendo seus lábios quentes molhados
em troca de uma estrada abrasiva
onde pudessem evaporar.

O céu é agora uma cidade,
é um prédio cheio de pessoas
a acenderem e apagarem suas luzes,
é o som de passos distanciados
que convidam as finas paredes de algodão
para dançar ao ritmo da chuva que cai.

Cheira a terra sufocada,
como se tivéssemos as mãos no pescoço,
como se as nuvens do céu,
fossem panos a tapar-nos a boca
e o ar respirável fosse apenas
humidade temporária e prestes a voar.

Quando um dia me deitar no chão,
espero que a terra cheire como hoje,
que use exactamente o mesmo perfume.

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