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Sonho Libertino

É tão mais fácil sonhar, que neste mundo ser gente, mas livres, somos apenas de imaginar, porque dos Homens somos descrentes. Escreveu-se tanto na memória dos livros, instruções de total liberdade, mas esqueceram-se de nos explicar, Como a vestir para andar pela rua fora. Sonhemos que escolhemos, que a nossa boca realmente fala, e que as ideias que nascem em nós não são filhas de um Deus menor. O meu..perdi-o a atravessar o sono deixei-o a falar aos Homens, porque enquanto estão distraídos posso dormir descansado...!

Pétalas de Cheiro

Peguei numa rosa e ela disse-me que te haviam caído todas as pétalas. Procurei-as com faro de cão e depois do chão te ter levantado com saliva na boca te colei. Peguei noutra flor, que me perguntou se a amava mas eras só de ti cheiro que me calava a boca.

Sou

Eu sou a sombra E a brisa que te aquece, A água que bebes Nos teus dias de verão. Eu sou o caminho Que descobres sozinha descalça e cansada. Sou a paisagem intimista, que pintaste com os olhos verdes dos campos lisos. Sou o deserto que construíste, Grão a grão com a boca De cada vez que me chamaste. Sou a criança, que embalaste nos braços e no baloiço partido do jardim. Sou o mesmo que choraste E fizeste chorar na hora de dormir Quando esperávamos por um amanhã. Sou...o princípio destas linhas. E se as leres serei também O fim de mais este parágrafo.

Jangada

Escrevo... Jangadas de palavras. Arrancei da terra Troncos de memórias Desnudei as arvóres Das folhas dos dias Amarrei as pessoas Para serem tábua de salvação. Da tinta fiz corrente, Escrita permamente Desenhei bandeiras, Apaguei ancorâs Soletrei a rota Recitei o ritmo da maré... Todos a bordos, Escrevi... Jangada a navegar

Cabelos de areia

De minhas mãos fugias, como o ouro dos bandidos, condenado da forca, cabelo do pente. Suave era esse cabelo dourado acabado de pentear, tapete de voos intemporais, mil noites para conquistar. Perdi-me nessa cidade de ouro que me enterrava os pés que eu abarcava com os dedos, amarrados da raiz às pontas. Era amor o movimento, vai e vém do vento quente que soprava vindo da terra do nada que tudo encerra. E esse vento amante, que te moldava as dunas, levou-te a construir castelos para outra praia longe da minha mão.

Gaivota

Disse-me uma gaivota um dia "sabes a mar" Como? se nem sei nadar? Se para mim o mar é saudade infinita, é mulher amante que só tenho quando ela me quer dentro dela? Disse-me uma gaivota um dia "és um peixe" Como se deixei a pele para trás se as escamas são hoje calvície, e se respirar dentro de mim é tão difícil como sereia ter pés para andar? Perguntou-me uma gaivota um dia "És o quê no mundo?" Sou mar infinito a morrer de saudades da amante que tem dentro dele, sereia com tranças de escamas em corpo de peixe que respira quando beija com seu pé o mar.

Barco à deriva

Barco contra a maré, o sol à nossa direita, a vela mantêm-se de pé, Horizonte é linha estreita. Os remos trabalham sozinhos, Gaivotas namoram sereias, Que domam golfinhos, A espuma forma teias. Sobrevive-se na crista, Molha-se o pessimismo, é isto um quadro futurista? "Metros a mais do mesmo," A âncora outrora sal fino Conserva o aço frio, Oxida a ondulação sem tino, ai barco resiste com brio. Cada onda é ponte erguida, Montanha azul sem trilho, As estrelas são guarida Escamas de peixe cheias de brilho. Barco se chegares a terra, Descansa de cabeça para ar Imagina que esta espera Aconteceu porque não sabias nadar.

Bola

sou bola contra a parede, atirada pelo coração parede, chão, parede, chão, voa bola coração para a mão, parede para a mão. voa bola e acerta-me no coração chão para a mão. voa bola esvazia-me o ar parede no coração. parede, chão, parede, chão sou bola contra a parede, esvazia-me o coração. sou bola vazia, sem parede no coração para acertar vinda do chão.

Beleza

Desumano medir a tua beleza, com a régua que me molda o bolso canhoto do corpo, trançando numa linha os centímetros que existem entre nós. A medida do que é belo, as tuas linhas, a lápis desafiado, desenhei-as hoje no céu matinal reais como obras da renascença. Sem métrica quantificante, regras que definem a escala o brilho que nos invade as pálpebras, é areia movediça num abraço. Mesmo que criem o vazio entre céu e mar, e enumerem sem erro o desígnio estrelar, deixem cair a teorização do encanto, congelem-me, e deixem-me mais tarde acordar.

Ensinamento

por mim... ensina-me a tua verdade a que não vem nos livros, que conheces sem saber ler. por nós.. ensina-me a ler os lábios do mar, na rebentação das palavras contra os soldados que dão o peito às balas sós. e por eles... ensina-me a escrever numa tempestade de areia, a manter os nossos pés cravados, para que não se apaguem as lapides esculpidas pelo vazar da maré. por ti... ensina-me a manter a gravidade horizontal das coisas, em especial a voz das gaivotas que nos levam bem mais longe que nós.

Fala

Na língua que conhecemos Falo-te em uníssono para nunca em mim acreditares. Falo muito, demasiado para certos ouvidos, mas aos teus peço que se destapem sempre que afastar as cortinas do teu cabelo, e respirando o cheiro que vem da janela, junto a eles começar a soletrar algo que se resume a palavras, que são expelidas da boca como a tinta foge da caneta na busca de procriar frases legíveis recitáveis na hora da carne. na nossa forma de falarmos, na invisibilidade dos sons que criamos, não existimos para o exterior... e chegamos a sair de nós se nos despimos mudos no céu da boca. Desta língua que tantas vezes mordo, saem falácias, falésias, mentiras e pinturas, e antes que sangre, fecha-me a boca e beija-me.

Viagem

De ti agora quero silêncio, E escutar os carris velhos, A avançar pela cidade Até sermos engolidos pelos carros. Digo-te, que este comboio é velho Porque já existia antes de nos amarmos, E por isso morrerá antes da nossa vez chegar, No fim da linha bem mais fina que esta. Dizes-me, "esta viagem é bem mais curta", Mas não te pedi restrições Aos sonhos de transmutar rodar em penas, E fugirmos daqui à velocidade do vapor. Não me evoques sentenças executadas, Juras de amor nunca quebradas, Viagens ao centro da terra, Ao interior da selva de nós. Estamos quase a chegar, Esta ausência de som que quero, É impossível de calar, Inevitavelmente da pele sai-me o falar.

Mais Cores

Criei-me na pessoa que vejo, apenas com uma pincelada vermelha, no peito, e sei quem a pintou. Desenho mal, sem precisão, e sempre acreditei que seria outro a colorir aquilo que os doutores chamam de coração. Fosse o meu corpo um arco-íris, em qualquer ponto do céu, e amaria eu decerto mais que uma só cor.

Pequeno além

Recordas-me uma pequena porção de terra que não conheço, um ponto no mapa que falta desbravar, marcado por castelo que resta derrubar. Conquistado, faria de ti alteza. de algo que não me pertence, alegando para ti a razão divina de tudo quanto lá nascesse, Leria todos os livros sobre o desconhecido para te conhecer melhor, fechando o conhecimento adquirido no tempo que viaja debaixo do solo. Lembras-me o eterno além, o antigo oriente dos prazeres, das noites que nos olvidam o voltar à terra que tanto chorou por me perder. quero-te e nem sei que és, mas para quê o saber se saber que existes é o suficiente para acreditar no que não consigo ver.

Chuva a galope

a chuva que caia ontem, cavalos soltos do céu, molhou-me a terra , desenhou pegadas em mim. Embalada pelo vento A chuva tinha crina longa, relinchava às luzes da rua, galopando contra o chão. Queria eu pegar em cada gota pelo freio e sentir-me livre como a chuva é de cair, e de nos inundar a casa. mas para que serve a liberdade, quando nos leva a corrente, e deixamos de respirar o ar que embalou ontem a água? A chuva não me entrou em casa, e fui muito menos livre, que os cavalos que galoparam a noite inteira.

Mar

o supremo ladrão de alma não é Deus o criador é o reflexo do céu onde mora..é o mar. Justo na força suprema, ondula ao ver-nos defenhar, na finitude da máres, e devolvo-nos os corpos, para também ele, chorar por nós.

Saudades tuas...seja lá quem fores

tenho saudades tuas desde que partiste, fechaste a porta e saiste por onde havias entrado. Dizem-me os vizinhos que ainda moras comigo. Que sabem eles da nossa casa da nossa cama e sofá?? De nós sabem apenas, o gato da vizinha que nos ouvia, à janela antes de cair no esquecimento do sono. e o cão vadio da rua que coxo andava pela calçada como nós falávamos um para o outro pedra contra pedra, chão contra chão. Tenho tantas saudades de ti, da tua voz suada no verão, do gelo do teu beijo invernoso, e do sabor a café dos teus olhos, tristes, cansados de me amarem enquanto subia colinas descontentes, rio de euforia perene, cascatas que me engoliam vivo. Perdi-te porque sou nervo, sou carne e osso, e porque conheces o quanto te quero, mesmo quando o nego...

Voz de papel

Quantas vozes vossas trago debaixo do braço Como jornal amarrotado, dobrado incessantemente? Esmola e pão escasseiam em meus braços e apenas inquietação escorre das minhas mãos. Pesam-me tanto que vos trago de rastos, pelo chão, a rastejarem pelo fosso do pensamento, purgatório de vidas vitímas de fraude, vitimas e culpadas de crimes destinados. Aqueçam-se em meus pêlos arrepiados, em pele tingida das letras impressas, mas não procurem lenha para se queimarem, ou fogo para vossos corpos cremarem. Subam por mim acima, como montanha escarpada, como gato amedrontado foge do cão, ao cimo de telhado inclinado que o atira de lá para o meio da rua, estendido no chão. Se abrir os meus braços, vossa voz cairá no vazio dos olhos quotidianos que vos ignoram sentados no vão de escada, em parede muda em vida que morre, e morte sempre oculta.

Embriaguez

Bebâdo, toda a consciência fica na garrafa. Embriagado de alcoól para as feridas, do líquido etílico, que nos guia em viagem sem preço ou apeadeiros, somos maquinistas, andamos a cavalo em nós, somos carruagem e cela, pneu e curva perigosa. Bebo à felicidade, daqueles que falam comigo em finais de noites dormentes com olhos semi-cerrados com os cabelos desgrenhados, e a roupa suja de pecados revelados gole ápos gole, choro após choro abraço por estarmos sós dentro de nós, cansados de sermos copo vazio e rolha pronta a saltar.