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Verità

não fales a verdade, foge de ti e dos outros. a verdade é como gelado frio nos dentes, apetece lamber, mas escorre-nos pela boca, enquanto levamos um estalo por olharmos para uma mulher alta, montanha em saltos altos, escadote directo à estrelas sem cauda, última folha de árvores de cabelos soltos. a verdade é descer as escadas pelo corrimão, pelo limbo da existência, pela berma da estrada, ser comandante em convés de fé, e abandonar o barco, apenas quando morrer tudo no que acreditamos. a verdade é não saberes ler uma única palavra, e creres que os murmúrios do outro lado da parede, não são mais que consoantes perdidas de amor, vogais dadas à sedução, e que depois de apagada a luz, no silêncio entre vírgulas jamais se conhecerão. a verdade é sonhar em ter o mar no bolso, onda após onda em maré alta puxando-nos as pernas em maré baixa decalcando-nos nas rochas as ossadas da erosão ressequidas, quais conchas de espuma, fosseis sem pérolas, corpo sem calças onde guardar a verdade. E nus,...

Roupagem

Dobro as palavras sempre na gaveta de cima. por ordem alfabética, para de manhã não perder tempo a escolher o que vou dizer nesse dia. As palavras vestem-se sem esforço, e uso-as por fora da boca, marginais, evitando que se sintam amordaçadas no cinto apertado dos dentes. Nas ruas de hoje, pessoas passeiam-se com palavras um número abaixo do seu corpo, apertadas, asfixiadas, robóticas, tentando planar sem rasgar o tecido das frases. E essas revestem-se cada vez de menos tecido, Expondo em demasia as fraquezas do corpo, sofrendo o desbaste de nocturnas florestas ocas, negras como madeira podre, queimadas em cinzas. E pior que não haver palavras em árvores, é só haverem as mesmas árvores, o mesmo oxigénio rarefeito salivado, a monotonia mental do vento que bate constante. Imagino o dia em que andaremos nus de palavras, pelo menos daquelas que nos soam mal, que são botões maiores que as casas, e que não cabem dentro de nós.

Banheira

Se fosse uma banheira afogar-te-ias em mim? Fecharias o ralo, para que nenhum de nós pudesse fugir na espuma da água quente...? Na nudez a água fria faz melhor à circulação...!!

Corda no chão

Prendes a corda À volta do pescoço e respiras como podes... Sentes-te imóvel... "É hoje que me vou". Dizes... Vejo a imobilidade... "É hoje que se vai" Penso eu... Olho para a cadeira Que lhe apoia os pés... Um, dois, três... Mira-me de cima Uma, duas vezes, De alto a baixo. Para bem alto vai, assim que o tacto dos pés, não sentirem o fim do chão. Sorri uma última vez volto a contar...1,2,3. Pé na cadeira. E hei-la no chão...

A Ti

A ti obrigado... Porque o mar é pouco, E a terra barrenta, Para pintar o que és... A ti obrigado... E a ode é triunfal, Vitoriosa na essência, Do beleza que és... A ti obrigado... Sem que precises, Ou te peça, Um agradecimento. A ti obrigado... Pelo não sofrimento, Pela ligeireza de pensamento, Expresso livremente ... A ti obrigado...

Depois de TI

Apetece-me cair, Cair, para me levantar. Comer pó Para o detestar. Rasgar a carne das mãos, Esfregá-las de dor, E perder a consciência Num lento esquecimento. Tentarei sonhar, Depois do acordar. Sonhar com tudo Enquanto andar. Correr a mente Sentado num jardim. Perceber o porquê De me estar a rir. Quero-me beijar… E nos lábios do mar, Sentir na saliva de espuma A língua a amargar-me. Não…Darei a uma mulher Pedra em flor, Em cheio nos olhos Em troca do coração. Que lavarei com a chuva Que me cai no corpo, E que me rega as costas Por entre a roupa seca. Apetece-me fugir Para me encontrar contigo Talvez à noite, Ou num dos dias do mês. Prometo agarrar o tempo, Para o deixar partir Nas horas que mais Custam a passar…. O silêncio Que me fará Sempre, Depois de ti falar.

Um tronco da árvore Genealogica

Hoje fazes parte na minha genealogia, E daquilo que construímos por entre inundações, Prego tortos nas paredes e cimento que se perdia na humidade pungente. Nasceste virado para oeste do paraíso, Trazido por costas unilaterais, sozinhas na mistura das horas, Que em cada minuto anunciavam que irias crescer antes do tempo da gestação. Pensei para mim, que flor se criará em solo tão árido, Em semente tão pouco amada quando deitada no punhado, De terra que nos serve de morada na hora da solene criação? Podias ter sido cardo, erva ou giesta brava, Tal era a dureza da enxada que te vergava o sorriso, E que te impedia de perceber que eras mais que nada, eras amor. E hoje que és mais que flor, uma árvore, Que abrigas há sombras dos sobressaltos, antepassados e recentes transeuntes, Sei que as tuas raízes se abraçam na certeza, de que o melhor dos ventos te soprou. O teu fruto merece que sorrias, Como quando ainda em caroço te adormecia, Ao som da voz que me falta, sempre que nos toca...

Cigarro ao Sol

Deixa-me enrolar a onda numa mortalha de um cigarro. Mas eu não fumo, nunca fumei sal ou praia, mas creio-me onda, e isco para peixe, ou espuma para areia, em cada onda que rebenta, nos pés que se afundam, na ponta escura da praia, onde as gaivotas se escondem para namorar com as dunas. Enche-me a vista com um copo do creme solar que nos lambe. Tenho tanta sede que cego, na superficie do teu corpo, como se pisasse um deserto de pele, ou construisse um jardim de sufoco. Que falta de ar sedenta, que nem a água extingue, nem o oxigénio incendeia. Põe-me à sombra senão morro, ou melhor,põem ao sol para que volte a nascer do fogo porque as cinzas já as depositei no mar, e esse... fumei-o no meu cigarro.

Condição Humana

É declarada morte à nascença quando são-nos lidas as premissas da nossa condição humana. Humanos obrigam-nos a ser, sem nunca constatarmos que o somos à condição . Suprema maldade materna, o nascimento para a ilusão de um dia pudermos decidir que humanidade temos nas mãos.

Vai e Vem

Vai e vem como o mar de Gainsbourg . Vai e vem em nave espacial pilotada pelo Armstrong . Vai e vem... o baloiço de Sá Carneiro que começou a dançar... Vai e vem, em estações de rádio sincronizadas com frequência. Vai e vem, no varrimento da imagem a mil e duzentas cores. Vai e vem, em títulos de jornal disfarçados de real. Vai e vem o frase de Euripedes que nos mata a esperança. Vai e não volta a crença da juventude dos retratos de Wilde. Vai e vem a dor do poeta fingidor que jamais sentiu dor Vai e vem… Vai e vem… Vai e vem…

O livro de ti

És um livro que ainda Não acabei de ler. Leio por dia, A mesma página cinco vezes Cada frase outras dez e releio as palavras até quase as apagar, Misturo singulares e plurais, verbos e nossos nomes, para me enganar, para demorar, reler e revisitar cada silába acentuada. Fosse eu incapaz de decifrar Cada vocábulo impresso, ser estrangeira a língua, ou eu pensar que é. Finjo para mim, Para não lhe pegar porque se o acabar, o que restará de ti? Sei o que fazer. Mil copias farei, títulos novos darei, e novamente o mesmo livro lerei.

Andorinha

Se eu precisar andorinha,.. De antecipar a primavera, Vens a planar ligeira, contrariar a orbita das estações? Ao menos pudesse andorinha, Impedir-te de emigrar, Criar-te um ninho caiado, à sombra, para sempre o teu lar... Se não voltares És mãe que não chora, És salina seca...

Baixa Tejo

Não respiro Lisboa há algumas marés. desapareceu a magia juvenil das conversas vespertinas com um Tejo amigo. Pensei em mascarar-me de peixe e viver apenas do ar do rio. Asssim talvez as saudades fossem apenas gotas de oxigénio.

Sol Quente

Sol quente que nas costas bates, torna-te supremo, no coração dos esquecidos, que te adorariam como ouro. Sol que talhas o caminho, e queimas as mãos dadas, retira o oxigénio ao silêncio nocturno das forças. Sol da minha vida, criação mais sublime, não mates os da minha espécie, deixai-os sonhar ao acordar. Dando-lhes a faculdade de acreditar, mesmo em dia de chão nubloso, ou de chuva que lhes dissolva a vontade de te receber de manhã.

Silêncio Postumo

A beleza de uma música... é o silêncio perpetuo, entre a morte de uma melodia e o seu renascimento noutro corpo. É momento esmagador, parede contra parede, a reduzir o coração, a um bater... Constante de asas em evasão. Parece terra engolida em seco, ou pele lavada em enxurrada, de sismos sensoriais, que cremos que nos pertencem. A beleza é que... nada é nosso a não ser o silêncio.

Pensar

Pensar cansa, e como tenho pensado... ! Talvez por isso esteja tão cansado. Pensar rouba-me horas irrecuperáveis, e chego a pensar que por isso não vivo. Pensar entristece, e ando triste de querer pensar. Ando sozinho, cada vez que penso E mais sozinho estou quando o deixo a pensar. Pensar aproxima-nos da unidade, com a morte a ficar mais perto, e assumo num pensar para dentro , que será essa a razão do nascimento. Sei que cada pensamento é um divagar do relógio que não para de girar, e não tarda estou certo... Deste pensamento nada restará.

Diferente

Somar à minoria, Ser zero à esquerda, última casa decimal. Reescrever o resultado final, o conjunto, ou as partes. Ser apenas desigual. Dividir entre extremos Sem nunca desenhar um centro, ou interceptar paralelas. Fazer a diferença, sendo apenas diferente.

Estranho

Também eu sou estranho também eu sou pessoa que me refugie numa asa ou em rua de enganos Sou estranho ao ponto de estranhar que outros mais enganados que eu não façam da rua, casa. Sem dúvida, creio-me enganado se temo a mãe dos outros e admito que estranho não conhecer a minha... Mas que assim seja... Vejo-lhes os corpos tão magros Que provavelmente estranham A acidez do leite materno.

Pertencer

Porque o vermelho nos une Em campo de batalha, Mais que marca de sangue, família e existência permanente, Constante, como marés, Foco de grandeza, nascente, crescente e hipodermicamente tatuada e presente. E se as palavras são, para nós mais que erros, ou pronúncias incorrectas, no tempo da escrita, Agradecemos a quem, nos ensinou a pegar na caneta, e nos fez assinar em consciência um vínculo com a pertença.

Jardim

Não é este o jardim que me prometeste... penso no esboço elaborado, rascunhado a mãos barrentas, e sobram pequenas cinzas, e raizes apodrecidas. Prometeste-me flores, imitadas no cheiro, plasticas às cores, imperceptíveis ao toque, Maleáveis à chuva, invisíveis às pegadas mortais dos indesejáveis amantes de petálas murchas. Porque falhou o plano, terreno, pouco imortal, divino e muito carnal, escrito em papel vegetal? Será do fertilizante, da míngua de sol, humidade relativa, subjectiva, ou do terreno perene? Não é o jardim, não. nem quintal, ou parcela, e a promessa ficou-se por relva em decomposição.