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Sol Quente

Sol quente que nas costas bates, torna-te supremo, no coração dos esquecidos, que te adorariam como ouro. Sol que talhas o caminho, e queimas as mãos dadas, retira o oxigénio ao silêncio nocturno das forças. Sol da minha vida, criação mais sublime, não mates os da minha espécie, deixai-os sonhar ao acordar. Dando-lhes a faculdade de acreditar, mesmo em dia de chão nubloso, ou de chuva que lhes dissolva a vontade de te receber de manhã.

Silêncio Postumo

A beleza de uma música... é o silêncio perpetuo, entre a morte de uma melodia e o seu renascimento noutro corpo. É momento esmagador, parede contra parede, a reduzir o coração, a um bater... Constante de asas em evasão. Parece terra engolida em seco, ou pele lavada em enxurrada, de sismos sensoriais, que cremos que nos pertencem. A beleza é que... nada é nosso a não ser o silêncio.

Pensar

Pensar cansa, e como tenho pensado... ! Talvez por isso esteja tão cansado. Pensar rouba-me horas irrecuperáveis, e chego a pensar que por isso não vivo. Pensar entristece, e ando triste de querer pensar. Ando sozinho, cada vez que penso E mais sozinho estou quando o deixo a pensar. Pensar aproxima-nos da unidade, com a morte a ficar mais perto, e assumo num pensar para dentro , que será essa a razão do nascimento. Sei que cada pensamento é um divagar do relógio que não para de girar, e não tarda estou certo... Deste pensamento nada restará.

Diferente

Somar à minoria, Ser zero à esquerda, última casa decimal. Reescrever o resultado final, o conjunto, ou as partes. Ser apenas desigual. Dividir entre extremos Sem nunca desenhar um centro, ou interceptar paralelas. Fazer a diferença, sendo apenas diferente.

Estranho

Também eu sou estranho também eu sou pessoa que me refugie numa asa ou em rua de enganos Sou estranho ao ponto de estranhar que outros mais enganados que eu não façam da rua, casa. Sem dúvida, creio-me enganado se temo a mãe dos outros e admito que estranho não conhecer a minha... Mas que assim seja... Vejo-lhes os corpos tão magros Que provavelmente estranham A acidez do leite materno.

Pertencer

Porque o vermelho nos une Em campo de batalha, Mais que marca de sangue, família e existência permanente, Constante, como marés, Foco de grandeza, nascente, crescente e hipodermicamente tatuada e presente. E se as palavras são, para nós mais que erros, ou pronúncias incorrectas, no tempo da escrita, Agradecemos a quem, nos ensinou a pegar na caneta, e nos fez assinar em consciência um vínculo com a pertença.

Jardim

Não é este o jardim que me prometeste... penso no esboço elaborado, rascunhado a mãos barrentas, e sobram pequenas cinzas, e raizes apodrecidas. Prometeste-me flores, imitadas no cheiro, plasticas às cores, imperceptíveis ao toque, Maleáveis à chuva, invisíveis às pegadas mortais dos indesejáveis amantes de petálas murchas. Porque falhou o plano, terreno, pouco imortal, divino e muito carnal, escrito em papel vegetal? Será do fertilizante, da míngua de sol, humidade relativa, subjectiva, ou do terreno perene? Não é o jardim, não. nem quintal, ou parcela, e a promessa ficou-se por relva em decomposição.

Mão Vermelha

A minha visão do amanhã é um final de almoço, sobras de pele e osso, e algum alcoól ébrio... É agora a mão esquerda Que me apoia a cabeça... No final da digestão Compulsiva das ideias Dos pratos vazios. É como se a mão direita fosse um parceiro abstracto desconhecido de mim, ou algo que se separa com um golpe de foice, Qual seara já seca, trigo mal amanhado, ou feno partido ao vento num campo deserto, entregue à rapinagem. O meu amanhã.... é feito de bolsos desfraldados Punhos embandeirados, Vermelhos de cobiça, Das liberdades que foram para o lixo.

Carnaval

Por entre facas e garfos E serpentinas de sereias, Voam bolas de sabão dançam entretidos palhaços Oiçam os cordas a chamar.... Há abraços a voar E braços a esbracejar, Pernas lentas a rebolar em beijos eternos gelados. Agora são flautas a sussurar... Cada voz perfila-se Mutila-se e suspende-se Qual multidão premente Prestes a silenciar a rebelião Tambores a marchar, a zumbar... Desfilam homens assexuados, Mulheres nuas na intimidade, Sem o espelho do preconceito Do público embriagado. Estalam copos e garrafas... Este é o Carnaval das gentes, a alegria utópica do povo, A soma de químicos e sorrisos, que disfarçam o quotidiano. As sombras dos fatos devolvem a noite ao céu...

Ruína

Somos prédios em ruína... De tinta maquilhada, quais jardins de poeira... colhidas pelas mãos duras de um pedreiro cansado... Somos prédios em ruína... Onde nem as fachadas caem, nem as portas se abrem E as janelas escondem A fraqueza dos alicerces. Somos prédios em ruína.... Alguém que nos construa, E nos ergua dos escombros. Pegue no entulho... E junte os pedaços num... Cuidado...Perigo de derrocada .

Pegar em Armas

Pegar em armas Carregá-las de palavras Erguê-las para atingir todos a quem o Poder Fez desmaiar a noção Do deve e do haver, Ou se quiseram esquecer Que como a mais fina gota Cairão um dia sós A chorar no chão Pegar em armas Sem acreditar em rendição, Escrever em pedras apontadas em cheio ao coração, que o sangue derramado Jamais será em vão, e mesmo que o seja Não se perderá no vazio Nem encontrará resistência Na falsa liberdade que nos dão.

Mar Adentro

Dava tudo por uma janela Com vista para uma cama Virada para o mar Com música ao fundo a tocar. Dava tudo por um jardim carregado de petálas E cheiro a terra molhada A escorregar-nos dos dedos. Ao som perdido de um violino Ou de um toque de piano Em notas soltas pelo campo Feito de linhas musicais Acredito que o verdadeiro poema Seria então o anoitecer Em cima de um sol dominado Por um gesto de final de tarde.

Linhas

Acrescento mais umas linhas E estico-as para serem rectas Para não ter ângulos Que acabem mortos.... Tal nunca o fiz... Faço das curvas ogivas Arcos poucos triunfais, Cascatas de lamentos E momentos circunstanciais... Ainda agora o faço... Desenho as rectas mas só recrio espirais Sem perceber se os circulos São perfeitos ou inacabados. Continuo a fazê-lo...

Ao amigo

Sabes quantas gotas de sangue Tens nas tuas veias, E quantas lágrimas tingiste? És a crença destrutiva E a inércia dos pulsos Que teimas em não erguer. Preferes as amarras dos minutos E a silhueta das sombras Da solidão que amas… Mas que não te ama a ti. Contrapõe o medo de viver Ao medo de viver a vida, E o amor que te prende Será da perdição a tua salvação. Porque tudo isto é derradeiro E sabendo que seremos outros No reencontro de outro presente, Faz deste o teu princípio, Mesmo que sintas O fim tão perto

Ressureição

Quando me escolheres, E rolares a pedra Do meu túmulo Espero que meu corpo Não te seja visível. Não me verás nu, Sem a minha mortalha, Serei apenas a luz A caminhar no sentido Da verdadeira eternidade. Escolheste-me por ser rei, Por não querer o trono Da terra pisada pelos homens, E chorada por aqueles Que trazes no ventre. Quiseste-me porque não temo Ser apedrejado pelos que amo, Porque os abraço quando sangro E lhes beijo os pés e mãos Por cada espinho cravado. Quando eu escolher ir contigo É porque terminei a obra, Esculpi e talhei a pedra, E transformei os elementos Na minha filosofia

Cor

Deixa que te crie em esboços de forma e te dê vida a lápis de cor A tua boca será rosa petala de cheiro e bussola do desejo de quem dorme em ti. Teu corpo serão olhos verdes em tons de mar, tingidos de estrelas em espelhos de sol. teus pés serão castanhos da areia que te abraça que beija e enleia para o retrato final.

Saudades

A dor da saudade Contem inumeras palavras nos espaços entre as letras. As que não pronuncio escorregam no esquecimento daquelas que sinto na pele. E que são ditas para preencherem o vaziodos conceitos inoquos, Verbalizados na torrente dos sentidos despertos pela ausência da certeza. A saudade é o fim Da visualização permamente Do obejcto querido. E o começo da fuga para os lugares escuros da sombra do horizonte.

Consciência de Ser

Sei hoje que o longe pouco ou nada me importa, ou se o lado de lá da porta se esconde ou se foge. Sei hoje que fui convidado por carta registrada, sem ser dado ou achado Para o caminho que é estrada. Sei hoje tão bem que nasci sem o saber e que o nascer também requer querer viver.

Flor de cheiro

Por tanto te querer encontrar comprei o cheiro de uma flor embrulhado em quatro bicos pronto a circular ao vento em todo o que é lugar. Se o vires a voar rentinho ao chão sopra-lhe para as asas dá-lhe um empurrão, mas nunca deixes a corrente levá-lo para fora de mão. Quando ele quiser pousar estende-lhe os cabelos e a pele da tua mão, deixa-o aterrar e parar quando terra avistar.